• Rafael Oliveira

Podemos barrar a evolução da esclerose lateral amiotrófica?



Passamos, rotineiramente, a procura de respostas para as inúmeras dúvidas que permeiam nosso dia-a-dia. Diversas patologias desafiam a medicina contemporânea, vencendo os tratamentos disponíveis e trazendo grande morbidade a vários pacientes que depositam suas esperanças na modernidade terapêutica. Aliás, muitas vezes, médicos prescrevem sonhos ou hipóteses, na tentativa de afagar com um pouco de fé almas desacreditadas pela fria incredulidade. Entretanto, vale ressaltar que ilusões também podem gerar consideráveis custos. A esclerose lateral amiotrófica (ELA) é uma patologia sem cura que leva seu portador à óbito com total consciência do que está ocorrendo. Trata-se de uma terrível sentença onde o inevitável tenta ser contornado de várias maneiras. Terapias mirabolantes são instituídas, porém nenhuma surte o esperado desejo dos profissionais da saúde e dos doentes. Supõe-se que exista forte relação entre radicais livres e o desenvolvimento de tal injúria nervosa.

Nesse contexto, uma droga eliminadora de radicais livres aprovada há algum tempo no Japão para tratamento de infarto cerebral agudo passou a ser estudada em casos de ELA. Chamada de edaravone, apresentou-se como uma promissora alternativa nessa calamitosa situação. Estudos em pequenos roedores e com número limitado de participantes afirmaram que o uso de tal fármaco poderia atrasar a progressão dos distúrbios motores funcionais, reduzindo o estresse oxidativo em pacientes com ELA (1, 2). Em frente a tais resultados, delineamentos mais robustos foram efetivados. Um ensaio clínico randomizado, com 213 participantes, concluiu que o edaravone foi eficaz em um pequeno subconjunto de indivíduos em fase inicial da patologia ou com suposto diagnóstico. Entretanto, não houve indicação de que tal fármaco possa ser efetivo em uma população mais ampla (3). Vale ressaltar que tal pesquisa possui um considerável viés metodológico. O laboratório que produz a substância foi o principal patrocinador do trabalho. Outra análise randômica com 206 pacientes atestou que embora a instituição de tal fármaco favoreça a redução da escala ALSFRS-R, sua eficácia não foi demonstrada (4).

Desse modo, estamos diante de uma possibilidade terapêutica, sem comprovação definitiva, onde os indícios mais robustos levam a crer que, infelizmente, ainda não possuímos alternativas viáveis para barrar a evolução dessa terrível patologia (4). Mesmo que a esperança possa ser saciada com pequenos estudos compostos por promissores resultados, a generalização e a saúde pública não podem compactuar com especulações fantasiosas.


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Dr Rafael Oliveira
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