• Rafael Oliveira

O cérebro e a leitura


O cérebro e a leitura

   Aprender a ler foi um dos maiores passos que o homem deu em sua caminhada evolutiva. A comunicação foi drasticamente afetada assim como os registros que compõe a nossa história. Todavia, durante milhões de anos evolutivos o nosso cérebro não aflorava tal capacidade. Em outras palavras, o homem pré histórico não sabia ler. Nos dias atuais seria taxado de analfabeto. E se partirmos do pressuposto de que o tempo é fator indispensável em nossa evolução, como o cérebro resolveu esse problema e em tão pouco tempo para padrões evolutivos aprendeu a ler?

  Mesmo que o cérebro humano primordial não fosse capaz de ler, ele sempre conseguiu reconhecer formas com grande desenvoltura. Objetos quadrados ou redondos eram facilmente identificados pela rede neuronal de nossos antepassados. Sabiam reconhecer objetos pontiagudos e os utilizavam para caçar. Inclusive desenvolveram a roda.

  A partir desses dotes cerebrais pré históricos, nossa complexa rede encefálica passou a compreender a escrita. A incrível plasticidade cerebral atuou no sentido de associar as letras a formas pré conhecidas. Talvez, um “O” a uma roda e um “I” a uma lança. Desse modo, o homem desenvolveu o alfabeto, a partir dele as sílabas e os fonemas e a consequente escrita e linguagem.


Conexões corticais da leitura


  O simples ato de ler envolve uma complexa rede neuronal que tem inicio na região occipital. Essa representa a entrada visual da palavra. Ou seja, olhamos e identificamos. Aliás, estudos neurocientíficos mostraram que a região occipital se torna mais aprimorada para qualquer estimulo visual quando a pessoa passa a ser alfabetizada. Talvez, o cérebro já tenha sido concebido para ler e só estava a espera das necessidades evolutivas dos homens.

  Saindo da região occipital, a palavra segue para a região occipito temporal ventral, localizada no lobo temporal posterior (giro fusiforme). Muitas autores denominam tal região de “Caixa de letras”. A grosso modo trata-se da “área da forma visual da palavra (VWFA)” sendo essa existente em todos os cérebros capazes de ler. Geralmente está localizada no hemisfério dominante . Sua função é basicamente reconhecer as letras e as silabas. Portanto, a caixa de letras fragmenta as palavras nas suas unidades linguísticas mais primordiais e distribui esses pequenos pedaços para outras áreas cerebrais a fim de decodificar seu significado e assim dar um sentido ao que está sendo observado. A partir desse ponto, dois caminhos são plausíveis e a direção tomada irá depender do tipo de palavra que acabou de ser vista.


1) Palavras cuja escrita pode ser prevista através dos fonemas – Suas sílabas são encaminhadas para a área de consciência de fonemas e grafemas localizada nos lobos parietal inferior e temporal superior posterior e nessa região são compreendidas;


2) Palavras cuja escrita não pode ser prevista através dos fonemas (irregulares) – São encaminhadas para a área do significado sendo decomposta em morfemas (as menores unidades da linguagem) e compreendidas. EX: homem é uma palavra irregular pois pronuncia-se homem sem H – Omem.


  Línguas com muitas irregularidades são chamadas de opacas. As que contém poucas palavras irregulares são chamadas de transparentes. Isso diferencia a facilidade em aprender determinadas línguas e a dificuldade em aprender outras. Como exemplo, a língua inglesa é opaca com muitas palavras escritas de forma diferente de seus fonemas. Já a língua italiana é transparente.

  Outro ponto importante é que em pessoas analfabetas a VWFA é altamente sensível a imagens (rostos e objetos) e a medida que a pessoa é alfabetizada, essa área vai perdendo sensibilidade para essa função e ela é transferida para a área fusiforme contralateral. Tal fato foi estudado pelo pesquisador francês Stanislas Dehaene que, através de ressonância magnética, mediu a atividade cerebral durante o aprendizado. Concluiu que em analfabetos a caixa de letras é mais responsiva a imagens e em pessoas alfabetizadas é mais sensível a palavras.


Métodos de alfabetização


  Para compreender como os métodos de alfabetização atuam nas redes neuronais é indispensável conhecer o modelo de via dupla. Esse descreve como o cérebro funciona quando submetido a esse novo conhecimento. Inicialmente, as conexões encefálicas vão identificando os fonemas que compõe as palavras de forma segmentada. Quando o cérebro já possui substrato linguístico suficiente para reconhecer de forma rápida e efetiva a palavra observada ocorre a fluência de leitura. A grosso modo, a via dupla é formada pelas vias fonológica e semântico-lexical.


1) Fonológica – A pronúncia da palavra (fonemas) é acessada antes de sua compreensão semântica. A área de Broca (área da palavra falada no lobo frontal) é ativada juntamente com a percepção auditiva. A medida que a palavra vai se tornando conhecida e a fluência passa a imperar, essa via é posta de lado e ativada somente a semântico lexical.


2) Semântico lexical – Via de percepção global. O individuo reconhece palavras como fotografias e não como segmentos fonológicos. Ao ver uma palavra conhecida ela é automaticamente ligada a seu significado semântico. Caso seja exposto a uma palavra nova ou rara a via fonológica é novamente ativada. Essa via também passa a ser recrutada quando ocorre lesão na caixa de letras.


  De um modo mais claro, a rota fonológica fornece os tijolos (letras e fonemas) para a construção de uma palavra e seu significado. Já a rota semântico lexical fornece blocos feitos por vários tijolos que tentam trazer o significado da palavra que está sendo lida. É saudável e efetivo manter as duas rotas funcionando de forma concomitante.

  Entendendo o modelo de vias é possível analisar os dois principais tipos de alfabetização e suas consequências futuras. Atualmente, vertentes pedagógicas se dividem, discutindo qual o melhor método para alfabetização: o fônico ou o global.


1) Fônico – Usa basicamente a via fonológica, fornecendo substrato fonético para composição da palavra e após identificar seu significado. Respeita o principio básico de aprendizagem do cérebro.


2) Global – Usa a compreensão do contexto e da situação, atuando na identificação visual da palavra como um todo a associando com figuras pré conhecidas para entender seu significado. Ignora a via fonológica partindo diretamente para a semântico lexical.


  Alguns pontos merecem destaque na análise desses dois métodos de alfabetização. As vias neuronais, durante o aprendizado, são estimuladas em determinada sequência já pré estabelecida. Inicialmente, o cérebro ativa a via fonológica na tentativa de criar substrato linguístico para embasar os pensamentos e comunicação futuros. Quando certas palavras já estão consolidadas a via semântico lexical é ativada somente para dar fluência e velocidade. Todavia, caso uma nova palavra seja vista, a via fonológica volta a funcionar. É, mais ou menos, como dirigir um carro. Ao aprender, todos os movimentos são conscientizados a todo o momento. Pensamos em acelerar, frear e mudar de marcha. Após aprendido, esses movimentos se tornam inconscientes até alguma necessidade ativar novamente a consciência. Ninguém consegue tornar o ato de dirigir inconsciente antes dele passar pela status de consciência.

  Esse é o principal problema da alfabetização globalista. Ela ignora processos neuronais iniciais e necessários que cimentam um adequado substrato linguístico para o reconhecimento da palavra fora do contexto aprendido. Isso ocorre pelo fato de que não há um entendimento linguístico fonológico do que está sendo lido, mas sim uma associação com determinada situação. Um cérebro limitado a alfabetização associativa teria que ter uma capacidade infinita de armazenamento para poder responder de forma adequada as mais variadas apresentações linguísticas a que somos submetidos. Já desestruturar as palavras em pequenos segmentos faz com que consigamos responder de uma forma mais adequada até mesmo em situações linguísticas a que ainda não havíamos sido expostos.

  Quando emitimos determinada opinião estamos traduzindo em palavras o que pensamos. Caso essas palavras tenham sido aprendidas dentro de certo contexto jamais será possível utilizá-las para outros fins ou para outros tipos de pensamentos. Do ponto de vista neurofisiológico somente a alfabetização fonológica é capaz de gerar substrato linguístico suficiente para podermos pensar de forma inventiva.


Defeitos na rede neuronal da leitura


  Várias mazelas neurológicas podem afetar a caixa de letras com consequências severas para a leitura. Em pacientes disléxicos, a caixa de letras funciona de forma irregular fato esse que justifica a dificuldade de aprender a ler. Aliás, países que adotam línguas opacas possuem maiores índices de pacientes disléxicos. Quando por algum motivo a caixa de letras é drasticamente lesada ocorre a alexia pura.

  É muito comum que crianças ainda não alfabetizadas escrevam de forma espelhada. Isso ocorre porque eles não conseguem, ainda discriminar a diferença entre as letras, principalmente as naturalmente espelhadas como “p” e “q” ou “b” e “d”. Tal dificuldade pode permanecer até os 9 – 10 anos.

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Dr Rafael Oliveira
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