• Rafael Oliveira

As verdades sobre as noticias médicas e alimentares.



Em uma escola de Medicina, todos os alunos, impreterivelmente, cursam uma cadeira chamada de epidemiologia. Nela, aprende-se a elencar os mais diversos estudos científicos, categorizando-os em uma escala dos mais fidedignos aos menos confiáveis. Os ensaios clínicos randomizados representam o topo dessa pirâmide e, bem delineados, se configuram na fonte mais segura para embasarmos nossas conclusões. Já os estudos observacionais são limitados não sendo, assim, as fontes mais fidedignas para suportar condutas e opiniões médicas. Apesar de ser cadeira obrigatória na faculdade, alguns profissionais deixam de lado esses conhecimentos e passam a considerar com ênfase desproporcional estudos menos qualificados, utilizando-os como paradigma em sua prática clinica diária. Contudo, o que considero mais surpreendente e assustador é que muitas pessoas insuficientemente letradas na área médica divulgam noticias com títulos extravagantes e chamativos onde o conteúdo do texto é totalmente cimentado em pesquisas cientificas pouco confiáveis, ou seja, em estudos observacionais. Indivíduos leigos, de modo geral, desconhecem a existência da epidemiologia. Afinal, tal ciência não faz parte de seus cotidianos. Portanto, ao depararem-se com qualquer informe de caráter científico ou alimentar produzem poucas criticas, levando ao pé da letra o recheio desses textos comumente midiáticos. Acabam desconsiderando que, muitas vezes, a chocante comunicação representa a tradução de um insuficiente estudo observacional. Estão, literalmente, comprando gato por lebre.

Frente a esse comum e tremendo viés de entendimento resolvi efetivar uma análise reversa das informações médicas e alimentares que são transmitidas às pessoas com considerável facilidade. Entendi que seria necessário chegar ao cerne das orientações que podem ser acessadas ao simples toque de um botão. Afinal, a internet tornou-se fonte inesgotável de informes e esses, muitas vezes, não sofrem nenhuma intervenção de cunho critico e seletivo. Queria, ipsis verbis, puxar o fio até o final do novelo. Para desenvolver minha ideia resolvi colocar-me no papel de uma pessoa com diabetes tipo 2. Tal escolha foi fundamentada no fato de se tratar de uma doença metabólica que aflige muitos indivíduos, sendo considerada por muitos como o maior mal contemporâneo. Simulei um paciente que acabara de receber esse complicado diagnóstico. Ansioso e ainda arisco com o comunicado sentei-me a frente do computador. Queria verificar qual deveria ser minha conduta para reestruturar meu cardápio diário e tentar, de algum modo, controlar essa debilitante condição. Digitei em uma ferramenta de busca a seguinte frase: “Sou diabético o que devo comer?”. Fui imediatamente direcionado para o site da Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD). Considerei o local mais óbvio e seguro para iniciar minha pesquisa. Afinal, não poderia imaginar profissionais mais habilitados para orientar-me do que os integrantes desse específica congregação. Estava no caminho correto. Após breve navegação pela página inicial encontrei um post intitulado de “Descobri que tenho diabetes. Como fica minha alimentação?"(1). Perfeito! Iria rapidamente corrigir meu rumo. Dentre as regras descritas que mais me chamaram a atenção destaco a recomendação para se realizar 5 a 6 refeições diárias (café da manhã é obrigatório), diminuir o consumo de gorduras animais e comer pães e massas integrais. Em outras palavras, manter uma dieta rica em carboidratos e baixa em lipídeos. Contudo, o texto disponibilizado no site da SBD não apresentou suas referencias bibliográficas. Seria um simples esquecimento? Frente a falta da procedência das informações tentei aprofundar-me um pouco mais. Queria realmente saber a fonte literária das orientações dietéticas dos especialistas na área. Me considero um paciente bem curioso. Em outra aba do site deparei-me com o “Manual de Nutrição para a Pessoa com Diabetes”. Um livreto digital desenvolvido para facilitar o roteiro alimentar de pessoas com o distúrbio metabólico (2). Ansiava pelas referencias bibliográficas. Em suas coloridas e didáticas páginas grifei alguns conselhos como usar o mínimo possível de gordura nos alimentos, evitar lipídeos saturados (pois esses poderiam causar o aumento da glicemia, do colesterol e dos triglicerídeos) e comer de 50 a 60% das calorias diárias em forma de carboidratos. Manteve-se a ideia de uma dieta rica em carboidratos e pobre em gorduras. Inclusive, os autores foram específicos e categóricos, recomendando para diabéticos tipo 2 o saboroso pão francês, baguete simples ou ciabata. Entretanto, a nova ausência de referencias bibliográficas estava me deixando bem confuso. De onde os especialistas da congregação retiravam seus embasamentos literários? Em um texto de 03 de setembro de 2014 chamado de “Gorduras: Vilãs ou Mocinhas?” encontrei a primeira fonte instrutiva (3). Abaixo da definição de que os lipídeos saturados são gorduras ruins encontrava-se uma única citação. Fez-se a luz! A indicação me conduziu ao site da Sociedade Brasileira de Cardiologia, mais precisamente para a I Diretriz sobre o Consumo de Gorduras e Saúde Cardiovascular (4). À primeira impressão me pareceu uma compilação completa. Várias referencias respaldavam as colocações e as ideias dos autores. Tabelas destacavam os níveis de validade científica dos trabalhos utilizados. Em suma algo, aparentemente, bem estruturado. Dentro da sistematizada redação procurei as menções sobre diabetes tipo 2, o meu foco. Afinal, tinha me colocado na posição de um paciente com tal mazela. O capitulo sobre gorduras saturadas pareceu-me um local propicio para iniciar minhas buscas. Lá, uma especifica frase brilhou aos meus olhos: “As evidências são limitadas no que diz respeito aos efeitos dos ácidos graxos saturados na incidência de resistência à insulina e diabetes melitus”. Limitado é um termo que não pode ser definido como indubitável. Na verdade, limitado é limitado. Se essa for a única alusão contida nesse roteiro que associa os lipídeos saturados a diabetes, como o site da SBD preconiza reduzir o consumo de tal macronutriente como forma de controlar a doença? Tomaram posição cimentados sobre uma locução desenvolvida na presença da palavra limitada? Segui percorrendo o artigo com o real objetivo de encontrar novos informes, talvez mais sólidos e coerentes. No capítulo sobre ácidos graxos trans nova referencia à doença metabólica. Os autores destacavam que ingerir tal substância pode ter interferência negativa na patologia. Algo meio óbvio, até porque as gorduras trans foram proibidas no Brasil e não possuem absolutamente nenhuma relação com as saturadas. Aliás, os lipídeos trans eram muito usados para a fabricação de margarina, a “saudável” substituta da mal falada manteiga. Cheguei ao final da diretriz. Nada mais foi dito sobre a relação entre o consumo de gorduras saturadas com o desenvolvimento ou a piora do quadro em pacientes diabéticos. Todavia, outro ponto despertou meu interesse. Percebi uma afirmação onde era dito que dietas ricas em ácidos graxos saturados e pobre em carboidratos foi considerada mais benéfica para o organismo. Como então o site da SBD recomendava reduzir as gorduras animais e ingerir pão francês, baguete e ciabata? Simples erro de entendimento? Resolvi investigar mais a fundo uma referência que citava a síndrome metabólica. Refere-se a um precursor da diabete, momento no qual as células tornam-se resistentes à insulina sem caracterizar a doença propriamente dita. A grosso modo um status pré-diabético. Fui levado a um artigo dentro do site da Sociedade Americana do Coração (5). Segui minha incansável procura à origem das recomendações nutricionais preconizadas pela congregação brasileira de diabetes. Uma única referencia em todo o texto fazia alusão ao binômio gordura saturada/síndrome metabólica (6). Era alvitrado que pacientes portadores de tal condição reduzissem o consumo de lipídeos animais e a citação disponibilizada levava a um mero estudo observacional (7). Àqueles mal classificados dentro da escala epidemiológica e que não devem embasar opiniões ou condutas médicas. Portanto, quando um individuo diabético acessa o site da Sociedade Brasileira de Diabetes procurando orientações sobre o que deve comer para melhorar sua saúde e tentar dominar a patologia está aderindo às conclusões de um estudo observacional. Minha análise reversa revelou o óbvio. Muitos conceitos e condutas médicas, se bem destrinchados, carecem de sustentação adequada. As pessoas, sob títulos chamativos, aderem a ideias que, no intimo, podem acabar por prejudicar sua saúde. Seja critico. Procure e investigue, mesmo que dê certo trabalho. Seu corpo agradecerá.


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Dr Rafael Oliveira
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