• Rafael Oliveira

Punção para coleta de sangue pode lesar o nervo ulnar?


Retirada de sangue e nervo ulnar

O nervo ulnar é formado pelas raízes nervosas provenientes de C8 e T1. Na parte superior do braço ele cruza medialmente a artéria braquial, atravessando o cotovelo no sulco ulnar (posterior ao epicôndilo medial do úmero). Logo após seu trajeto no cotovelo, o nervo atravessa o túnel cubital e em seguida cursa dentro do canal de Guyon até alcançar a mão.

O nervo ulnar tem por função motora a flexão ulnar do punho e alguns movimentos do segundo ao quinto dedos. Pode ser vista atrofia da musculatura interóssea. Já seu território sensitivo inclui a região dorsal e palmar do quinto dedo e metade do quarto dedo. A lesão no cotovelo pode gerar a “mão em garra”.

Devido ao seu longo trajeto, o nervo ulnar pode ser lesado em diversos pontos.


· Cotovelo – Por compressão ou estiramento no sulco ulnar. Segundo Mark S Greenberg, o cotovelo é o ponto mais vulnerável do nervo, sendo sua localização mais superficial. Geralmente, a lesão do nervo nesse ponto é decorrente de fraturas no cotovelo, trauma leve repetitivo do cotovelo, artrite ou de causa idiopática;


· Punho (Canal de Guyon) – Devido a neuropatia compressiva ou fratura do punho. Geralmente, a lesão do nervo nesse ponto é decorrente de gânglios no pulso ou traumas repetitivos do pulso (apoiar-se sobre a palma da mão);


· Palma da mão – Secundário a um traumatismo fechado da palma.


A eletroneuromiografia é o exame chave para o diagnóstico . A maioria dos casos deve ser tratada de forma conservadora (bandagens elásticas para o cotovelo) durante 4 a 8 semanas. Caso seja ineficaz deve-se considerar a descompressão cirúrgica do nervo.


As punções venosas no cotovelo são muito utilizadas para a coleta de sangue para exames de rotina. Trata-se de uma região facilmente acessada e que possui índice limitado de complicações. De modo geral, punciona-se as veias mais superficiais da fossa cubital sendo a mais comum a veia basílica medial ou veia cubital. Essa está localizada na camada superficial da fossa cubital juntamente com a veia cefálica mediana, com os nervos cutâneo antibraquial lateral e palmar do nervo cutâneo antibraquial medial e com o ramo ulnar do nervo cutâneo antibraquial medial. No plano mais profundo da fossa cubital pode-se encontrar o tendão braquial do bíceps, artéria braquial e nervos mediano e radial.

Existem descrições limitadas de lesões de nervos periféricos pós punções venosas. Ou seja, trata-se de condição pouca descrita talvez pela raridade de seu acontecimento ou talvez pelos limitados relatos dos pacientes em virtude do curso benigno do acontecimento. Como dito anteriormente, os nervos que cursam próximos as veias superficiais da fossa cubital são os nervos cutâneo antibraquial lateral e palmar do nervo cutâneo antibraquial medial e o ramo ulnar do nervo cutâneo antibraquial medial . Caso sejam acidentalmente contundidos durante uma venopunção pode ocorrer quadro de dor persistente, semelhante a uma queimadura e choque elétrico ou parestesia na distribuição especifica do nervo periférico. Os sintomas podem começar imediatamente com a agulha in situ ou podem ocorrer de forma retardada. De modo geral, complicações nervosas pós veninpuntura são mais frequentes em tentativas de flebotomias (punção venosa mais invasiva). Nas corriqueiras punções com agulha simples, caso ocorram, a resolução espontânea do quadro neurológico se dá em 70% dos pacientes no primeiro mês, em 90% dos pacientes em 3 meses ou em 96% dos pacientes em 6 meses (Ramos , JA. Lesão de nervo cutâneo antebraquial lateral relacionada à venipuntura: o que saber? Rev Bras Anestesiol. 2014;64(2):131-133) . Portanto, caso ocorra, trata-se de uma condição com curso extremamente benigno com excelente prognóstico e índice de sequelas insignificante.

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